Ter medo do futuro, mais especificamente medo de se encarar numa situação onde haja arrependimento traduzido em medo de desperdiçar o tempo, poderia ser só um lampejo da minha ansiedade dizendo que me preocupo em ponderar minhas decisões.
No entanto quando olho mais fundo para dentro dos meus pensamentos e observo os motivos do medo constante entendo que os sinais são um pouco mais alarmantes do que uma “ansiedade normal” ou uma preocupação corriqueira.
O etarismo e o medo de envelhecer
Começa com o medo da velhice, que traz um desespero aguçado de o que se tem que fazer para envelhecer bem ou até atrasar o máximo possível o envelhecimento. Não se pode morrer “amanhã”, uma vida longa deve existir e ser bem vivida.
Enxergar a velhice como algo normal é um desafio grotesco de enorme, sendo que saúde e finanças se tornam a preocupação maior para que algum sonho/desejo/aventura ainda possam existir.
O câncer também adiciona ao fator “fim de vida” com um infeliz mistério de lentidão que acompanha o linfoma folicular indolente, sua evolução a passos de lesma faz com que o tratamento fique esperando um momento que compense “maltratar” o corpo e o medo de que tudo acabe “do nada” pressiona ainda mais o medo de que nem envelhecer seja possível.
Em uníssono vem o falecimento de familiares, amigos e conhecidos por diversas razões, e o estado debilitado, dificuldades de cuidados, entre outros tornam o medo ainda mais aflorado.
Frente a isso a sociedade encara as pessoas velhas de forma negativa, ou então encara como um tipo especial de consumidor, que se tiver dinheiro recebe todas as propagandas possíveis de “melhor fase” e “viva a melhor 3.a idade”. Planos de saúde exorbitantes e um sistema público despreparado, profissionais que não poderiam se importar menos com os idosos, casas de repouso e creches cercadas de preconceito ou quando não são boas então vazam problemas e maus-tratos por todos os lados. Quem quer viver isso?
Cansamos de ouvir preconceitos contra velhos e de ver velhos reforçando esteriótipos de péssimas atitudes, não sei se é minha bolha mas parece que a velhice não faz parte da equação de vida, quase ninguém fala sobre ela e tão pouco se fala sobre morte. Como lidar com algo que é escorraçado para o fundão da memória coletiva a fim de que seja praticamente invisibilizado?
O clima e o capitalismo
O que se faz com a vida quando o sistema em que se vive destrói e oprime a possiblidade de vivermos e sonharmos com, que seja um dia a mais, o futuro?
O maldito do capitalismo necessita dessa amalgama de horrores que ocorrem de antes, e durante e talvez, infelizmente, depois de minha vida. Por não ser o tema central vou pincelar apenas, tenho que trabalhar numa escala em que apenas poucas horas me sobram pra espremer: família, amigos, companheira, lazer (toda e qualquer prática que seja), práticas para saúde, cozinhar, limpar, lavar, cuidar da casa, cuidar do carro, práticas de estudo (todos os tipos, música, carreira, hobbies, etc), descansar+dormir.
A conta não fecha.
Uma vírgula de desvio e tudo vai pro caramba, não há minimalismo/hábito/organização que vingue.
Somos direcionados a funcionar como máquinas desnecessariamente esgotando até a última esga do folego, chaveando/saltando de coisa em coisa, de tarefa em tarefa, de trabalho em trabalho, quando há uma pausa se é que é possível que a mesma exista, a cabeça fica a milhão, segue tentando organizar/pensar/funcionar sem parar/frear.
Colaborando com a situação já opressora e caótica o grande conglomerado capitalista de ricos (10 famílias mais ricas [1], 13 famílias controlando tudo [2]) está nos servindo com a destruição completa da possibilidade de vida do ser humano no ÚNICO planeta em que vivemos, óbvio que cada indivíduo tem uma pequena parcela de responsabilidade em não piorar a situação, mas nada do que façamos como pessoas vence o volume absurdo de destruição que as indústrias causam, sejam quais forem, agro, tecnológica, militar, têxtil, etc.
Enquanto ponderamos se as férias irão nos demitir existem empresas manipulando valendo trilhões em dólares [3] só no setor tecnológico, e por que falei desse específico? Porque o dito cujo é responsável por balizar e controlar nossas vidas, a exemplo de fake news/derrubada de perfis para manipulações políticas, dietas falsas, consumismo, etc.
Uma pessoa com depressão cíclica e crises de ansiedade se vê agora com “ansiedade climática”, ou amenos agora dão um nome para o desespero de não saber o que fazer com sua vida e dos seus entes queridos ante a tantas desgraças.
A onda de calor do final de 2025 no Brasil, afetando São Paulo e outros estados próximos [4] me fez ter mais de 5 dias de noites mal dormidas, problemas respiratórios, superaquecimento do corpo entre outros problemas que ainda vou ter que entender como lidar e como me preparar pra mitigar em situações futuras, pois daqui em diante a tendência é intensificar e aumentar a frequência.
Estamos vendo mais enchentes, mais secas, e até furacão, nunca nenhum brasileiro poderia ter imaginado que furacões seriam sequer possíveis em nossas terras.
Voltando ao presente pra falar do futuro
Somando todos esses pontos parece compreensível pirar na batatinha de vez, como é que vou escolher o que fazer da vida? Será que estarei vivo até o fim do ano?
Para todos nós pessoas comuns não é possível não planejar o futuro dado o risco que corremos ao não fazê-lo, no entanto não é factível conseguir arguir qualquer possibilidade vindoura de vida na situação atual sem ter que olhar para o fundo do abismo de falta de chances de ter uma vida tranquila.
Quanto mais tempo passa pior fica e mais pressão sinto em dar alguma direção para a vida que me sobra, seja ela quanto for, isso cria uma tensão e uma ansiedade que são difíceis de lidar e sendo realista o mundo fora das telas está completamente quebrado, estamos puxando a corda para todos os lados e não parece que vai melhorar no tempo de vida das próximas gerações, fica então o reforço na dúvida, o que se faz com a desgraça crescente e o tempo que não se tem e que diminui a cada segundo.
Enquanto não consigo lidar com o presente virando passado e planejar qualquer futuro, registrar os pensamentos se faz necessário para não enlouquecer, assim que mesmo no questionamento do motivo de perda de tempo em um texto tão fugaz, sigo tendo esperanças que alguém leia, que cause qualquer reflexão, e talvez alguma empatia pela minha pessoa e quiçá um desembaralhamento mental.
Referências
[2] https://wealthifynest.com/13-families-that-run-the-world/
[3] https://worldostats.com/global-stats/richest-tech-companies/